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C.U. DO MUNDO COM HEMORRÓIDAS
TUDO A VER. MESTRES EM OSTENTAÇÃO E FEROCIDADE. Crise institucional por quê? Agosto de 1961, Jânio Quadros renuncia. Pego-me na Ladeira da Memória, centro de São Paulo, a caminho do Estadão, esquina da Martins Fontes com Major Quedinho. Busco informações precisas sobre o ocorrido com meu pai, Giannino, solidamente instalado na redação. Da bocarra dos bares sai o vozerio trivial dos locutores de futebol, irradiam um jogo do Santos de Pelé. Em Montevidéu, é de lá que vem a gritaria. Jânio, candidato da direita, convém dizê-lo com todas as letras, ganhara a eleição presidencial de 1960 e seu mandato não passava de pouco mais de cinco meses. Abandona o Planalto, declara-se vencido pelo poder das “forças ocultas”. As raízes do golpe de 1964 ali estão. Creio, porém, que JQ imaginasse, para o imediato, outro desfecho. São muitos aqueles que crêem na aposta do presidente na revolta capaz de reconduzí-lo à Brasília nos braços do povo. No entanto, a pátria de chuteiras estava grudada nos rádios que transmitiam as façanhas do rei Pelé. Em 47 anos o Brasil mudou bastante juntamente com seu povo, e este mudou por causa de Lula. Jânio cobria os ombros de caspa e a cabeça com o quepe dos motorneiros e foi eleito com 12 milhões de votos, recorde absoluto até então. Percebeu-se, entretanto, que na hora crucial os eleitores preferiam o Santos F.C. Com Lula a história é outra. A maioria identifica-se com o ex-operário e líder sindical, enxerga no presidente o cidadão igual e automaticamente aprova-lhe o desempenho. Nunca um presidente do Brasil teve aprovação tão avassaladora, mais de dois terços da nação estão com ele. Registre-se um dado preocupante para quem gostaria de vê-lo logo pelas costas: Lula conta também com maioria na chamada classe média, a mesma que a mídia costuma visar para entorpecer-lhe a consciência. Estes 70% de platéia a favor do presidente permitem que, a toda hora, venha à tona a ameaça da crise institucional no Brasil de 2008? Crise institucional por quê? Por que o Brasil está satisfeito com seu governo? Esta sim é a verdadeira novela brasileira muito mais verídica do que aquelas da Globo.
C.U. DO MUNDO COM HEMORRÓIDAS
C.U. DO MUNDO COM HEMORRÓIDAS (CONTINUAÇÃO) Ocorre recordar a fala estranha, peculiar de Jânio Quadros. As forças ocultas. De fato, muito ocultas, ocultas demais. À época as forças aparentes e evidentes, diria até escancaradas, puseram-se à vista desde a semeadura do golpe. Ali se postavam, inquietas, à espera do pretexto. Quatro e mais décadas depois, quem arca com o mesmo papel? Sim, possível é questionar todos os poderes de uma democracia capenga, e os comportamentos dos privilegiados, mestres em ostentação e ferocidade, e as fabulações grosseiras da mídia nativa. Ainda assim, por que admitir, mesmo academicamente, uma crise institucional quando o presidente da República goza da aprovação de 70% da população? No espaço dos últimos 60 dias os fantasmas de outros tempos surgiram nos vídeos e nas páginas da imprensa. Ao ser levantada a possibilidade da revisão da Lei da Anistia e por ocasião da deflagração da Operação Satiagraha. Nas duas oportunidades, diante da pretensa ameaça de uma crise institucional, logo desfraldada pela oposição parlamentar e pela mídia, com a conspícua contribuição do presidente do STF, ministro Gilmar Mendes, e do ministro da Defesa, Nelson Jobim. E o governo, que dispõe do apoio maciço da nação? Tergiversa, concilia, como se houvesse de fato o risco da tal crise. Trata-se de reabilitar o espectro das forças ocultas? Há quem diga que as pesquisas valem até certo ponto. Na hora azada, o povo ainda ficaria preso à transmissão radiofônica de um jogo de futebol. Alguém sorri com condescendência e afirma as injunções da “correlação de forças”, em nome, talvez, de “um vezo marxóide”, pelo qual cabe atentar, antes de mais nada, “no estrutural”. Então seria algo assim como se as pesquisas de opinião fossem a ponta do iceberg, enquanto a realidade nua e crua fica abaixo da tona. Quem sabe Maquiavel dissesse que tudo não passa de desculpa, para deixar as coisas com estão para ver como ficam. (MINO CARTA)
SALVAÇÃO DE MORIBUNDOS
SALVAÇÃO DE MORIBUNDOS CAPITALISMO EM CRISE. A recente crise do mercado financeiro colocou em xeque todo o sistema mundial das finanças. Mostrou que a grandeza das nações, as montanhas de dinheiro acumulado e as propaladas vantagens da globalização têm duas vias. Podem ser boas ou más. Tudo depende da forma como são concretizadas. A crise teve um começo certo no conceito e nas transformações do crédito na época pós-moderna. Crédito vem de crer. Do ponto de vista econômico, significa receber um bem imediatamente com a condição de pagá-lo no futuro. Acontece que esta engenhosa criatividade do ser humano para facilitar suas transações passou a ser um negócio em si mesmo. O que era instrumental para se atingir um fim transformou-se no próprio fim. E passou a constituir o conteúdo de diferentes institutos jurídicos e econômicos, que se denominaram “derivativos do crédito”. De início foram apenas os juros e a correção monetária que se calculam entre a disponibilidade do bem e o seu efetivo pagamento. Porém a extrema criatividade dos negócios internacionais, embalados pela especulação sem limites do ganho fácil, multiplicaram estas possibilidades. Formaram-se então os fundos de hedge, que são garantias do risco das operações financeiras. Mas esta própria garantia é objeto de especulação, pois se criaram muitas instituições para prestá-la mediante compensação financeira. Forma-se então a costumeira ciranda: um fator econômico se liga a outro, formando uma cadeia artificial e virtual, sem existência concreta, mas importando em quantias gigantescas que se contam em trilhões de dólares. Com a hipoteca aconteceu o mesmo. Esse instituto de direito privado permitiu que muitas pessoas adquirissem um bem dando como garantia um imóvel. Esta garantia, mais tarde passou a ser o próprio imóvel adquirido enquanto a dívida era paga. Mas também aqui começou a ciranda. Grandes empresas se especializaram no “comércio” das hipotecas, vendendo casas em massa sem cuidar da capacidade financeira do comprador.
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