PAU NO C.U. DOS PREJUDICADOS
O MODÊLO MAFIOSO TRIUNFOU NO ÂMBITO ESTATAL BRASILEIRO
QUEBRA DE SIGILO DAS CORRETORAS DOS FUNDOS DE PENSÃO
QUEBRARAM O BB – Calabi, presidente do banco, se desespera com a possibilidade de um rombo de 5,5 bi. Na quarta-feira passada, o economista Andrea Calabi, presidente do Banco do Brasil, irrompeu no plenário do Senado com ar arfante e semblante de desespero. Falou com alguns senadores e, em seguida, um grupo reuniu-se com ele na sala da vice-presidência. A portas fechadas, Calabi dizia aos senadores: “Quebraram o Banco do Brasil, quebraram o Banco do Brasil”. Um dia antes, o Senado aprovara uma resolução capaz de produzir um rombo de 5,5 bilhões de reais nos cofres do banco —o suficiente para deixá-lo na corda bamba. A resolução, proposta pelo senador José Agripino Maia, do PFL do Rio Grande do Norte, e emendada pelo senador José Eduardo Dutra do PT de Sergipe (depois presidente trabalhista da Petrobrás), é uma patifaria do começo ao fim. Pelos termos da medida aprovada, os três governos estaduais e as quatro prefeituras que emitiram títulos para pagar precatórios superfaturados ou que nem existiam como apurou a CPI dos Precatórios, encerrada em 1997, agora podem jogar a conta no nosso bolso. Ou seja: a União fica com os títulos podres no cofre e os Estados e municípios, que cometeram o crime de fazer uma emissão irregular, ganham dez anos para pagá-los. E onde entra o Bnco do Brasil? É simples: uma parte substancial dos títulos emitidos irregularmente pela prefeitura de São Paulo, num total de 5,5 bilhões de reais, está na carteira do Banco do Brasil. Esses títulos foram parar no BB durante o primeiro semestre de 1995, quando ainda não se sabia que os papéis eram uma fraude. Como a resolução diz que Estados e municípios não precisam resgatar seus títulos fajutos, o Banco do Brasil ficará com um mico monumental na mão. Visto que o patrimônio do banco é de 7,2 bilhões de reais, assumir um buraco de 5,5 bilhões o deixaria reduzido a 1,7 bilhão de reais de patrimônio. Com isso, pelas regras do Banco Central, o Banco do Brasil terá de aumentar seu capital. Ou seja, a União, mais uma vez, terá de pagar para manter o banco de pé. A alternativa para fugir do rombo é bastante sinuosa: a prefeitura de São Paulo, segundo determina a resolução do Senado, teria de admitir publicamente que cometeu um crime ao emitir os títulos, e o Banco do Brasil, por sua vez, precisaria provar que abriu sua carteira para esses papéis de boa-fé. Só existe um problema: o crime da prefeitura de São Paulo foi cometido durante a gestão do ex-prefeito Paulo Maluf, quando o secretário de Finanças era o atual prefeito Celso Pitta. Alguma chance de Celso Pitta vir a público admitindo que cometeu um crime? E, mesmo que o fizesse, ainda assim caberá à União assumir as dívidas. “Eles se deram bem” — Enquanto joga o Banco do Brasil na lona, a resolução do Senado recompensa não apenas os governos estaduais e prefeituras que cometeram um crime. Recompensa também todos os bancos e fundos de pensão suspeitos de ter participado da jogada dos títulos fajutos, na qual criaram uma cadeia da felicidade, aquela corrente em que compravam e vendiam os títulos irregulares, auferindo grandes lucros. Agora, além de ficar impunes, esses bancos e fundos de pensão ainda poderão receber o dinheiro dos títulos picaretas — tudo como se a operação tivesse sido feita na mais perfeita legalidade. “É um perdão para a cadeia da felicidade”, diz, indignado, o senador Roberto Requião, do PMDB do Paraná, que foi o relator da CPI dos Precatórios. A CPI, ao encerrar seus trabalhos, há dois anos, fez um relatório final em que incriminava os três governos estaduais, as quatro prefeituras e ainda uma penca de agentes financeiros que negociaram os títulos na cadeia da felicidade. “Eles lesaram os cofres públicos e ainda se deram bem”, resume o senador. (VEJA em 30 de junho de 1999) |