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Paulo
pauloaguilar@ig.com.br
O que vc me diz de uma novela onde o dono da favela e sua milicia, que ele chama de anões, é reverenciada com altos índices de IBOPE, e frequenta diariamente as revistas e jornais e ninguem, eu disse ninguem escreve uma linha sobre o absurdo de se endeusar esse tipo de coisa. O rio de Janeiro ou melhor o Brasil merece.
SOBREVIVENTE
 A democracia contemporânea transformou-se numa encenação, numa farsa financiada e representada por velhacos que tratam o povaréu como uma platéia de mentecaptos.  A mão invisível, santificada, do mercado, que transforma vícios privados em virtude pública, gerou imenso vício público com raríssimas virtudes privadas.  São tantas e deslavadas as mentiras, tão grosseiras as justificativas, tão grande a falta de escrúpulos que já não se pode cogitar somente de uma crise de valores senão de um fosso moral e ético que parece dividiu o país; faz de conta que não foram usadas as mais deslavadas falcatruas para desviar milhões de reais num prejuízo irreversivel em país de tanto miseráveis; a rotina da desfaçatez, indignidade, parece não ter limites levando os já conformados cidadãos brasileiros a uma apatia cada vez mais surpreendente, como se tudo fosse muito natural e devesse ser assim mesmo.  As regras do mercado, seguidas rigorosamente, não podem coexistir com desenvolvimento sustentável. Desenvolvimento sustentável exige planejamento social, preocupação com o futuro, um tomar conta do outro... O que existe hoje é um enorme esforço para não permitir isso. Há um grande ataque ao sistema de previdência. O ataque é porque a seguridade social é baseada em princípios éticos. Tais princípios precisam ser destruídos. Ninguém deve se preocupar com o outro. A preocupação com o outro é hoje a mais profunda e revolucionária idéia. O interesse maior é minar a idéia de solidariedade. Os princípios liberais do século 18, com Adam Smith, assumiam como certos os princípios de solidariedade e a preocupação com os outros. Incrível que sejam essas hoje nossas grandes batalhas.  A fase financeira do capitalismo atual é muito diferente daquela sobre a qual refletiu Marx. Naquela época, para lucrar, era preciso produzir, não havia outro meio para lucrar senão produzindo, portanto era preciso fabricar e prestar serviços. Hoje descobriu-se a pólvora: é não somente possível, mas muito mais fácil lucrar sem produzir, que é o sistema da especulação financeira.  Esbulho possessório é isso aí -– apropriar-se do Estado para consolidar e multiplicar os interesses privados, da minoria que financia os governantes e recebe as prebendas de volta, como financiamentos, proeres, subsídios, isenções, perdões e privatizações sob forma de verdadeiras doações.  Na ditadura militar nada podia ser dito, principalmente o verdadeiro, e nesta peculiar democracia tudo pode ser dito, principalmente o falso.  COMO NÃO DEI ASAS ÀS COBRAS, HABITARÁ ESSE PRIVILEGIADO TERRITÓRIO UMA CLASSE DIRIGENTE TÃO CORRUPTA QUE CONDENARÁ SEU POVO AO EXTERMÍNIO.
alberto
alberto099@ig.com.br
Caro Alberto Dines, é difícil encontrar um juízo tão contundente é correto quanto esse: “Estamos diante de um flagrante de subversão da ordem e das instituições. Os paramilitares cariocas não estão apenas conectados ao aparelho de segurança como anulam as prerrogativas democráticas do Estado de Direito e confrontam abertamente a soberania do Estado brasileiro”. O que me estranha é sugerir que essa seja uma situação inédita, que não existisse antes do surgimento do fenômeno das “milícias” de não traficantes. O tráfico também ocupa o vácuo de autoridade deixado por um Estado omisso, por acaso não havia conexão entre contravenção e poder público antes do advento das milícias? Por acaso também não se constituía em “uma conexão sabida porém nunca mapeada com precisão” (situação tanto confortável quanto irremediável para se julgar de qualquer coisa em um país onde o aparato jurídico-policial não funciona) o acordo entre inúmeros governos do Rio e o tráfico, que dividia entre eles o espaço da cidade? Alguém se recorda que o terror do pré-carnaval de 2003 nasceu não de batalhas entre polícia e bandidos, mas de disputas entre esses últimos? Será apenas vontade do jornalista de se insurgir contra o governo federal, já que pesca a reação imediata do ministro da justiça, em flagrante delito de férias, e lhe atribui a intenção de favorecer os milicianos? Esquecendo inclusive que, como tratara no artigo anterior, foi uma operação da Polícia Federal que trouxe o caso a tona, polícia aliás subordinada ao mesmo ministro? Ou será que o juízo agora admita tamanha (e justa) contundência porque a contravenção pode ser tachada como “de direita”, enquanto o tráfico tem um potencial “de esquerda”? Talvez a intenção do jornalista não seja afinal denunciar nossa perigosa aproximação do caso colombiano, onde cada lado – a esquerda ou a direita –, possuem sua facção na política oficial, no aparelho jurídico policial, na contravenção e também na mídia, por que não?
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